Positividade tóxica: o mal por trás das ‘good vibes’


Para ele tudo era motivo para se sentir feliz. Gratidão para coisas boas. Dificuldades e problemas eram aprendizados. Definitivamente, era um sujeito com boas vibrações. Toda essa sua positividade era referência para muitas pessoas e ele era um verdadeiro espelho, um modelo a ser seguido.

Seria tudo muito bonito se por trás de toda essa positividade não se escondesse um problema de grande força. Algo que, em vez de inspirar, provocava decepção, tristeza e agonia. A atitude positiva ao extremo pode ser tão ruim que ganhou um nome próprio: positividade tóxica.

Profissionais da saúde mental alertam que o excesso de positividade, a concentração apenas no ‘lado bom da vida’, provoca danos na própria pessoa e em todas as pessoas a sua volta. A pessoa extremamente positiva chega a um extremo que, diante de situações em que são necessárias emoções negativas, ela não sabe como reagir.

A pessoa está tão viciada em ‘good vibes’ que passa a sentir dificuldades em expressar emoções negativas. A falta de expressão dessas emoções pode provocar um acúmulo de sensações negativas e levar uma explosão pontual com consequências extremamente danosas.

A pessoa que cria a imagem de positividade extrema, alto astral constante, encontra-se em um beco sem saída no momento em que é abalado por emoções, reações e sentimentos negativos. Ela não consegue sequer pedir ajudar, pois demonstrar essa negatividade contraria a sua auto imagem e a imagem apresentada aos outros. A auto suficiência emocional criada pela positividade extrema da pessoa levou a uma situação que ela sequer sabe como pedir ajuda.

Veneno amigo

A positividade tóxica também afeta as pessoas ao redor. A pessoa altamente positiva se torna uma referência para os outros que podem sofrer cobranças das pessoas ou mesmo realizar auto críticas sobre seus comportamentos em comparação a forma como a pessoa altamente positiva reage aos problemas.

Uma pessoa em depressão, enfrentando problemas pessoais, com dificuldades emocionais certamente ouvira de pessoas com pouca empatia ou baixa sensibilidade que esses seus problemas são frescuras e que ela deveria olhar para fulano (o sujeito super positivo) e aprender com ele a lidar com essas frescuras. A própria pessoa pode se auto criticar e fazer comparações com a pessoa ‘good vibes’.

Nesse ponto, a positividade extrema acaba se tornando um grande vírus, extremamente tóxico que se espalha pelas pessoas provocando redução da empatia, da sensibilidade pelos problemas alheios e ao mesmo tempo que cria uma utopia irreal de um modo de viver sempre sorrindo e alegre.

Claro que não existe problema algum em ser uma pessoa positiva, procurar o lado bom das coisas, mas é essencial compreender que errar, sofrer, sentir tristeza ou ficar desmotivado são situações normais e que temos o dever e o direito de ter. O desenvolvimento pessoal, o auto-conhecimento passa por se permitir sofrer, por sentir tristeza e dor, por errar, por pedir ajudar e se permitir ser ajudado.

Ilusão das mídias sociais

O pior de tudo nessa situação é que a obrigação das pessoas se sentirem positivas levou a criação de uma realidade ilusória por meio das mídias sociais. As pessoas postam fotos de como amam seu trabalho, do 'rolê' super divertido com os amigos, do ‘paguei’ da academia, do seu cachorro ou gato que são 'quase gente', da comida maravilhosa que estão comendo... mas poucos conhecem os bastidores por trás dessa realidade falsa.

Muitas vezes por trás da foto do trabalho no fim de semana se esconde a angústia de estar esgotado física e mentalmente fazendo um trabalho que deveria ser prazeroso, mas que na verdade paga muito mal e exige demais. A foto da comida ou da roupa nova esconde uma dor provocada pela baixa autoestima e insegurança que levam a uma compulsão consumista. O ‘paguei’ da academia é a tipificação do sacrifício para atender uma demanda social por um corpo perfeito e sexy. O pequeno animal de estimação é a personificação da falta de alguém, de um relacionamento, do sonho de ‘amor da sua vida’.

Toda essa realidade fica camuflada por trás de uma vida ‘good vibe’ e perfeita. Essa falsa realidade provoca outras pessoas a buscarem o mesmo tipo de vida, o mesmo padrão de excelência e acaba levando ao mesmo precipício de decepção de uma realidade falsa.

A única forma de realmente se lidar com essa situação é sendo verdadeiro com você mesmo. Não se preocupar mais com o julgamento alheio, com padrões e ideais impostos pela sociedade. Ser você e apenas você. Ter um animal de estimação como verdadeiro amigo, não um objeto para ostentar em fotos nas mídias sociais.

Degustar uma bela refeição sentindo seu sabor e gosto e toda a sensação maravilhosa que comer pode proporcionar, uma verdadeiro gesto de amor próprio. Não se preocupar em mostrar a foto do prato no seu story, para os outros saberem que você está comendo algo delicioso.

Trabalhar para se sentir bem, pagar suas contas e aproveitar a vida. Trabalhar para viver e não para conquistar seu primeiro milhão antes dos trinta anos.

E, quando as 'bad vibe' te atacar, se permitir sentir tristeza, decepção ou desmotivação, 'curtir' e aceitar o momento e se sentir seguro para conversar francamente com um amigo, alguém que não te julgue, não dê opiniões, apenas dê o ombro para você se apoiar nesse momento difícil e, se for preciso, chorar e levar a sua alma.

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